sexta-feira, 20 de julho de 2018

Crônicas de Buenos Aires 1


Buenos Aires, inverno de 1952

O espetáculo fora realmente magnífico. Apenas os cainitas ficaram para cumprimentar a atriz principal, cria de uma proeminente Toreadora local. Em torno de 40 vampiros esperavam com rosas nas mãos para presenteá-la. Alguns Toreadores, com lágrimas de sangue nos olhos, emocionados com a atuação espetacular, beijavam-lhe as mãos e suspiravam sem dizer uma única palavra, mas foi o príncipe, um Giovanni que fez a voz com forte sotaque italiano ecoar por todo o teatro.
- Minha bela, que primor! Que espetáculo! O mundo deveria poder ver esta obra prima! Em breve, quando os televisores se popularizarem, tenho certeza de que tal talento será levado ao mundo inteiro!
- Don Rafael, que privilégio ter o senhor em minha humilde peça! Sinto-me honrada...
- Privilégio tenho eu, cara mia! Toda a família está no Colon hoje!
Uma toreadora que trajava uma peruca rosa de bom tamanho se adiantou e interferiu na conversa:
- Somente os ratos ficaram de fora, querida!

E todos riram com a referência aos membros menos favorecidos da família, a quem se referiam como ratos, pois julgavam que se alimentavam destes.
E qual não foi o espanto que, neste exato momento, caindo diretamente de um dos mezaninos, uma ratazana aterriza na peruca da proeminente Toreadora, tirando gritos de todos em volta.
- O que é isso? - perguntou o príncipe indignado enquanto outro rato passava sobre seus pés e outro era esmagado pelos sapatos finos de um Toreador indignado.

O barulho aumentava, centenas de ratos surgiam dos cantos estreitos e se jogavam dos mesaninos. Os presentes gritavam em desespero, tentando entender o que estava acontecendo.
No fundo do salão, uma figura misteriosa se fez ser percebida. Sua presença fez todos se calarem. Atrás dele, milhares de ratos amontoavam-se em silêncio.
- Todos os ratos estão presentes, senhores: OS SEUS E OS MEUS. - Disse numa voz grave que se espalhou por todo teatro e por fim emendou:
- Eu sou o REI DOS RATOS!
E desapareceu no ar enquanto milhares de ratos entravam no salão guinchando, expelindo fezes  e urina sob os ricos estofados.




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